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Alunos fizeram protesto com vaias no pátio da escola estadual após declaração da docente. A educadora disse à polícia que estava dando um exemplo de como o racismo é enraizado na sociedade.

Após comentários racistas em sala de aula, que levaram os alunos a protestarem, a Secretaria Estadual de Educação licenciou, temporariamente, a professora de matemática do 1º ano do Ensino Médio da Escola Estadual Djanira Rodrigues de Oliveira, no bairro Jardim dos Comerciários, na Região de Venda Nova, em Belo Horizonte.

Em nota, a pasta disse que “o caso está sendo apurado pela equipe de inspeção escolar e órgãos competentes, que irão avaliar quais medidas poderão ser tomadas. “Informamos que a profissional está temporariamente licenciada“, disse o comunicado.

Na manhã desta quarta-feira (20), um dia após ouvirem a educadora dizer que atravessa a rua sempre que vê um homem negro à noite, vários alunos foram à escola vestidos com camisa preta em nova forma de protesto.

A direção da escola e representante da Secretaria de Educação passaram nas salas de aula para explicar o andamento do caso e ofereceram chocolate aos alunos.

Escola fica na Região de Venda Nova, em Belo Horizonte. Houve aula normal nesta quarta-feira (20), um dia depois da confusão. — Foto: Raquel Freitas / g1

Escola fica na Região de Venda Nova, em Belo Horizonte. Houve aula normal nesta quarta-feira (20), um dia depois da confusão. — Foto: Raquel Freitas / g1

‘Não gosta de negro’

Um aluno da escola disse ao g1 Minas, nesta quarta-feira, que espera que haja algum tipo de punição para a docente.

“Muito revoltante o que a professora fez. Pra mim, ela deixou bem claro que não gosta de negro. Ela ainda confirmou que é racista, falou dentro de sala de aula. A gente vai para escola para aprender a matéria, estudar e depara com esse tipo de situação, é muito revoltante isso. Espero que isso não fique impune”, disse.

O presidente da Comissão de Promoção da Igualdade Racial da Ordem dos Advogados do Brasil em Minas, Marcelo Colen, também comentou o caso.

Segundo ele, os educadores exercem um papel fundamental na formação de cidadãos conscientes e responsáveis. Ele elogiou a postura dos estudantes.

“Sem dúvidas o caso demanda devida apuração no âmbito administrativo junto à Secretaria de Educação e no âmbito criminal com o desenvolvimento da investigação policial. Mas, pra mim, o último fio de esperança em uma sociedade estruturalmente racista foi constatar que os jovens estão preparados para perceberem e denunciar condutas discriminatórias”, disse o advogado.

Entenda o caso

Alunos da Escola Estadual Djanira Rodrigues de Oliveira fizeram um protesto, no pátio da instituição, após comentário racista de uma professora na manhã de terça-feira (19).

Pátio da escola em BH ficou cheio de alunos durante protesto contra comentário de professora sobre racismo. — Foto: Reprodução

Pátio da escola em BH ficou cheio de alunos durante protesto contra comentário de professora sobre racismo. — Foto: Reprodução

Durante uma aula, na manhã de terça-feira (19), em que ela abordava o “racismo estrutural” da sociedade, ela exemplificou dizendo, segundo os alunos, que atravessa a rua sempre que vê um homem negro à noite.

“Eu fiquei muito nervoso. A professora estava falando de racismo estrutural quando assumiu que se ela visse um homem negro na rua à noite, ela atravessaria a rua e questionou aos alunos quem mais faria isso. Eu sou negro e percebi que ela foi extremamente racista”, disse um estudante que não quis se identificar.

Depois que vários alunos foram ao pátio protestar, inclusive com vaias, a diretora da escola chamou a Polícia Militar (PM).

Uma aluna confirmou à polícia a declaração da professora durante a aula. A adolescente disse, segundo o boletim de ocorrência, que chegou a gravar o comentário, mas resolveu apagar o vídeo.

Já a professora disse à polícia que a aula era sobre cotas raciais e que ela trouxe exemplos de racismo estrutural. No boletim de ocorrência consta que ela justificou sua declaração dizendo que foi dada “devido às questões enraizadas de sua criação”.

A Polícia Civil disse que vai apurar o caso.

O que disse a Secretaria de Estado de Educação

“A Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais (SEE/MG) informa que a Superintendência Regional de Ensino (SRE) Metropolitana C, cuja a Escola Estadual Djanira Rodrigues de Oliveira, em Belo Horizonte, é circunscrita, está acompanhando o caso envolvendo uma professora da unidade. A equipe de inspeção escolar irá apurar a situação, ocorrida na manhã desta terça-feira (19/4), e um relatório será elaborado para avaliar quais medidas poderão ser tomadas.

A direção da escola acionou a Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG) para registrar um boletim de ocorrência e ouvir as partes envolvidas. A direção também ressaltou que a unidade sempre desenvolveu atividades pedagógicas sobre o combate ao racismo para que haja discussões e disseminação de conhecimento sobre o tema.

A SEE/MG reitera que repudia quaisquer atitudes e manifestações de discriminação, preconceito e racismo. A escola é um espaço sociocultural que deve respeitar e, sobretudo, discutir amplamente a pluralidade cultural, como uma forma de desconstruir preconceitos. Além disso, a pasta realiza constantemente a política estadual de promoção da paz nas escolas, como o Programa de Convivência Democrática”.

Por Maria Lúcia Gontijo e Flávia Ayer, g1 Minas e TV Globo

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